Moacir Gadotti entrevista Paulo Freire.
Moacir Gadotti -
O brasileiro é um povo que vive de esperanças, só que uma atrás da outra vão
embora, e sempre vem a frustração depois. Foi assim com as diretas já, com a
Constituinte, com o Collor... Hoje vivemos um momento de incertezas, parece que
o chão que pisamos está se movendo, e nós, no Brasil, não conseguimos enxergar
a dia de amanhã. De onde vem essa esperança de que é possível transformar o
mundo a que você se refere em Pedagogia da Esperança?
Paulo Freire - É uma pergunta que
exige uma reflexão, mesmo que sucinta, em torno de nós próprios. O que estamos
sendo no mundo João, Maria, Carlos? E não importa aí a classe social, embora
esta tenha uma influência fantástica na forma como estamos sendo. Mas o que
estamos sendo, por que estamos sendo, como estamos sendo, quem estamos sendo?
Isso me permite fazer comparações. Por exemplo: olho agora o quintalzinho de
minha casa e vejo outros seres também vivos, mas de ordem natural uma
jabuticabeira e o canil onde está o Jim, um pastor alemão -, e já poderia
estabelecer comparações entre como eu estou sendo, como a jabuticabeira está
sendo e como o Jim está sendo. Sem ir muito longe, eu chego a uma primeira
conclusão, de que as relações que há entre eu e as minhas jabuticabeiras e
entre eu e Jim não são as mesmas que há entre eu e você. Há uma qualidade
diferente nessas relações. Segundo, eu posso tomar como referência, para me
distinguir dos outros dois seres (o Jim e a jabuticabeira), que, embora os três
seres sejamos finitos, inacabados, incompletos, imperfeitos, somente eu entre
os três sei que somos finitos, inacabados e incompletos. A jabuticabeira não
sabe. Ela tem outro tipo de saber.
Gadotti - É isso que você
quer dizer quando escreve no livro que "eu sou esperançoso, por imperativo
existencial"?
Freire - É isso também.
Eu sou esperançoso porque não posso deixar de ser esperançoso como ser humano.
Esse ser que é finito e que se sabe finito, e porque é inacabado sabendo que é
inacabado, necessariamente é um ser que procura. Não importa que a maioria
esteja sem procurar. Estar sem procurar é o resultado, é o imobilismo imposto
pelas circunstâncias em que não pudemos procurar. Mas não é a natureza do ser.
É por isso que quando as grandes massas sofridas estão, como eu chamo em
Pedagogia do Oprimido, mais imersas do que emersas na realidade social,
política e econômica, estão sendo proibidas de ser. Por isso é que elas ficam
apáticas. A esperança não floresce na apatia. Cabe ao pedagogo, ao filósofo, ao
político, aos que estão compreendendo a razão de ser da apatia das massas - e
às vezes da apatia de si mesmos - a briga pela esperança. Eu não posso desistir
da esperança porque eu sei, primeiro, que ela é ontológica. Eu sei que não
posso continuar sendo humano se eu faço desaparecer de mim a esperança e a
briga por ela. A esperança não é uma doação. Ela faz parte de mim como o ar que
respiro. Se não houver ar, eu morro. Se não houver esperança, não tem por que
continuar o histórico. A esperança é a história, entende? No momento em que
você definitivamente perde a esperança, você cai no imobilismo. E aí você é tão
jabuticabeira quanto a jabuticabeira.
Gadotti - A esperança é uma
marca, é a expressão ontológica do ser humano?
Freire - A esperança é uma invenção do ser humano que hoje faz parte da nossa natureza que se vem constituindo histórica e socialmente. Ou seja, a esperança é um projeto do ser humano e é também a viabilização do projeto. Por isso é que os ditadores, tanto quanto podem, aniquilam a esperança das massas. Ora sob o susto, o medo, o pavor. Ora sob o assistencialismo. Eu não sou contra a assistência, porque não é possível você ver um homem morrendo e dizer que não dá pão porque é assistencial. Isso está errado, é um crime. O que não podemos ser é assistencialistas, quer dizer, transformar a assistência em uma estratégia. Mas como tática é absolutamente válida.
Gadotti - O que há de novo no novo livro e o que permanece de Pedagogia do Oprimido?
Freire - Permanece um monte de coisas. Além da crença, da esperança, permanece o respeito e a convicção da importância do papel da subjetividade. Quando os marxistas - e também os não marxistas - de natureza de pensar puramente mecanicista me criticavam nos anos 70, me acusavam de ser idealista, kantiano, na melhor das hipóteses de neo-hegeliano, por causa de minhas propostas de conscientização que entravam em choque com aquelas ideias de que a superestrutura condiciona a consciência. Hoje estamos vendo emergir a crítica segura e séria a esse mecanismo de origem marxista, que não foi competente para explicar o próprio papel de sua luta contra o projeto capitalista - luta na qual anulou a presença do indivíduo, o gosto do indivíduo, o medo do indivíduo, o prazer do indivíduo.
Freire - A esperança é uma invenção do ser humano que hoje faz parte da nossa natureza que se vem constituindo histórica e socialmente. Ou seja, a esperança é um projeto do ser humano e é também a viabilização do projeto. Por isso é que os ditadores, tanto quanto podem, aniquilam a esperança das massas. Ora sob o susto, o medo, o pavor. Ora sob o assistencialismo. Eu não sou contra a assistência, porque não é possível você ver um homem morrendo e dizer que não dá pão porque é assistencial. Isso está errado, é um crime. O que não podemos ser é assistencialistas, quer dizer, transformar a assistência em uma estratégia. Mas como tática é absolutamente válida.
Gadotti - O que há de novo no novo livro e o que permanece de Pedagogia do Oprimido?
Freire - Permanece um monte de coisas. Além da crença, da esperança, permanece o respeito e a convicção da importância do papel da subjetividade. Quando os marxistas - e também os não marxistas - de natureza de pensar puramente mecanicista me criticavam nos anos 70, me acusavam de ser idealista, kantiano, na melhor das hipóteses de neo-hegeliano, por causa de minhas propostas de conscientização que entravam em choque com aquelas ideias de que a superestrutura condiciona a consciência. Hoje estamos vendo emergir a crítica segura e séria a esse mecanismo de origem marxista, que não foi competente para explicar o próprio papel de sua luta contra o projeto capitalista - luta na qual anulou a presença do indivíduo, o gosto do indivíduo, o medo do indivíduo, o prazer do indivíduo.
Gadotti - Então você continua
criticando esse mecanicismo que sustenta a tese da inexorabilidade do homem e
de que há uma sucessão na história que inevitavelmente levará ao socialismo?
Freire - Claro. Veja como há
uma contradição enorme nessa inexorabilidade: brigava-se pela inexorabilidade.
Se a coisa vem de qualquer maneira amanhã, por que eu vou morrer hoje lutando
por ela? Vou esperar. Esse mecanicismo deveria inclusive conduzir à apatia. E
está provado que não é assim.
Gadotti - Veja que coisa
engraçada: você diz na Pedagogia da Esperança que "a luta de classes não é
o matar da história, mas certamente é um deles". Você, que foi criticado
na Pedagogia do Oprimido por não usar a expressão luta de classes, sabe que
agora vai ser criticado porque está usando?
Freire - Isso é
interessante. Sabe um dos riscos que a gente vai enfrentar no começo do milénio
- e já está enfrentando hoje? E que muita gente de esquerda ficou de tal
maneira inquietada com a queda do Muro de Berlim, que perdeu parâmetros e se
sente imobilizada. Essas pessoas estão aturdidas diante da história
precisamente porque pensavam que o amanhã era inexorável, e não tiveram tempo
de se reconstruir e de se repensar.
Gadotti - Mas quais são
esses riscos?
Freire - Primeiro, de uma
minoria dessas pessoas conseguir chegar ao poder e reativar em si,
odientamente, o gosto stalinista. O segundo risco é de alguns desses que estão
impactados caírem num imobilismo tal que passem a acreditar no discurso
neoliberal de que a luta entre as classes sociais se acabou, de que a ideologia
se acabou, de que a história se acabou. Esse segundo grupo constitui um perigo
enorme para a própria progressividade, termina por dar força à maioria de
direita e à minoria de esquerda que pretende reativar o stalinismo. Um terceiro
risco que estamos correndo no começo do milênio em face de todo esse desarranjo
histórico é exatamente o poder do neofascismo, que se assanha, sobretudo na
Europa, mas também no Terceiro Mundo (seja o surto de neonazismo em São Paulo,
essas ameaças de fuzilar nordestinos, esse racismo de direita). É uma ameaça
assustadora, que é de natureza material, mas, sobretudo espiritual, ideológica
- o que não se via anteriormente. O educador não pode estar distante dessa
preocupação. Isso tem que estar sendo discutido nas classes primárias, com
linguagem de menino.
Gadotti - Você também tem se
preocupado bastante com o sectarismo, não é?
Freire - Em Pedagogia da
Esperança, eu retomo e avanço um pouco em relação à Pedagogia da Opressão, em
que eu já havia feito a crítica do sectarismo. Lá, eu era radical e não
sectário. Hoje eu me acho mais radical - e mais longe ainda da sectarização.
Foi a experiência histórica, e, portanto política e social, me ensinando que eu
teria de me convencer de não estar mais tão certo de minhas certezas. Essa
certeza da incerteza, da busca da incerteza, em vez de matar em mim a aventura
da esperança, me levou mais para a aventura da esperança. Quer dizer, no
momento em que eu descubro que não posso estar mais tão certo de minhas
certezas, tenho a esperança de descobrir um pouco de luz na incerteza. Então,
eu fico mais curioso, mais indagador, mais competente. E isso me levou
necessariamente a ficar mais não conciliador; de compreender o diferente, e não
de negá-lo.
Gadotti - O que significa
respeitar a diferença? É simplesmente, tomo diz a ideologia burguesa, respeitar
o pobre, respeitar o negro...?
Freire - Trata-se de entrar na
pele dele e aprender também.
Gadotti - No livro A Filosofia Mestiça (Nova Fronteira), que é fantástico, o educador francês Michel Serres afirma que todos nós somos mestiços e que não há nenhuma educação se não conseguir compreender - mais que compreender, assimilar - uma outra cultura que não a sua. Você concorda?
Gadotti - No livro A Filosofia Mestiça (Nova Fronteira), que é fantástico, o educador francês Michel Serres afirma que todos nós somos mestiços e que não há nenhuma educação se não conseguir compreender - mais que compreender, assimilar - uma outra cultura que não a sua. Você concorda?
Freire - A posição que eu chamo
substantivamente democrática parte pare compreender a necessidade. Não é como
um favor. Eu tenho a necessidade de compreender um diferente de mim, se eu
quiser crescer. Portanto, a minha radicalidade fenece no agora, Gadotti,
momento em que eu me nego a compreender o diferente de mim. Segundo, quando eu
compreendo o diferente descubro que há um diferente diferente, que há um
diferente que é antagônico. Ou seja, ele é tão diferente de mim que não dá para
dialogar comigo em termos profundos. Mas ao descobrir a possibilidade da
existência do antagônico, que é o diferente mais radical, eu descubro também
que até com o antagônico eu aprendo. E que, portanto, não posso me fechar
sectariamente. No fundo, a minha briga não é contra os outros; é contra mim
mesmo, no sentido de não me permitir cair na sectarização. E a sectarização é a
negação do outro, é a negação do contrário, é a negação do diferente, é a
negação do mundo, é a negação da vida. Quer dizer, ninguém pode continuar vivo
se sectariza. Veja como o stalinismo era a anti-vida, como o nazismo é anti vida.
E a democracia só se autentica quando é vida. E esta só é vida quando é móvel,
quando tem medo. É preciso se abrir ao máximo, às emoções, ao riso, aos
desejos, inclusive a essa anti-vida que é o cientificismo. O cientificismo é
uma anti-vida porque esse sonho de uma rigorosidade absoluta contra a não
rigorosidade do saber é a negação da vida também.
Gadotti - Na Pedagogia da
Esperança você aborda a questão da mulher, da armadilha que a linguagem nos
coloca, por exemplo, quando afirmamos que os homens fazem a história, ou
quando, para nos defender diante de certas perguntas que as mulheres nos fazem
sobre o uso da linguagem, nós afirmamos que, quando falo em homem, a mulher
necessariamente esta incluída. Como sair dessa armadilha?
Freire - Em primeiro lugar, a
gente tem de reconhecer que a linguagem é uma produção social, com uma presença
individual nessa produção social. Segundo, é precisamente por isso que a
linguagem é corpo ideológico. Não é possível pensar em linguagem sem ideologia
e sem poder. Terceiro, a própria gramática nasce historicamente como uma
regulamentação do poderoso, de quem tem poder. Nas culturas machistas,
evidentemente que a linguagem se amolda a esse machismo. Numa perspectiva
progressista, é absolutamente fundamental que se reinvente também a linguagem,
por que não é possível você democratizar uma sociedade deixando de lado um dos
aspectos fundamentais do que fazer da sociedade, que é a linguagem humana. Num
tempo de busca de igualdade, de superação das ideologias restritivas, não é
possível permanecerem sintaxes proibitivas da mulher. Certa vez, falando a um
auditório onde havia 1500 mulheres, de repente olho e vejo a cara de um homem e
digo: "Todos vocês". Isso não é gramática. Isso é ideologia. Eu tenho
que dizer "todas vocês" mesmo. Eu falo nesse livro que é possível que
alguém diga que a invenção da linguagem, antes da invenção das estruturas
sociais, era puro idealismo. Não é. No momento em que você não pensa a história
como determinismo, mas como possibilidade, a reinvenção da linguagem faz parte
da reinvenção do mundo. Então, você pode até começar pela briga da reinvenção
da linguagem.
Gadotti - Nos Estados Unidos, já
é comum referir-se aos negros não como nigger, mas como african american. É uma
forma de começar a falar politicamente correto, não é?
Freire - Concordo. Mas o que
você enfrenta de obstáculos quando faz isso... E sabe qual é a minha resposta?
Prefiro enfeiar o meu discurso a fazê-lo mais bonito, mas inautêntico do ponto
de vista político. E acho mesmo que o feio aí vira esteticamente bonito, porque
iluminado pelo acerto político.
Gadotti - Essa questão se liga a
uma outra armadilha de linguagem, que você trata no livro Professora Sim, Tia
Não. Você diz na página 25: "A tentativa de reduzir a professora à concisão
de tia é uma inocente armadilha ideológica em que, tentando se dar a ilusão
de adocicar a vida da professara, o que se tenta é amaciar a sua capacidade de
luta ou entretê-la no exercício de tarefas fundamentais”. O que quer dizer com
isso?
Freire - Que não se deve tirar
da professora o dever de ela ser professora, o dever de querer bem, de amar não
apenas o menino, mas o próprio processo de que ela faz parte como um dos
sujeitos, que é ensinar, que é formar. O que é preciso é que ela saiba que,
quando a chamam de tia, no miolo desse tia o que existe, nem sempre lucidamente
para a diretora da escola, é o seguinte: tia não pode fazer greve. Quanto mais
você reduz a profissionalização a uma amorosidade parental, tanto menos a
professora terá condições de brigar. Pelo menos é o que a ideologia espera.
Digo também que ela pode gostar de ser tia e pode preferir continuar a ser
chamada de tia. Nada contra isso. Mas é preciso que saiba o que há de manha ideológica
quando chamam você de tia.
Gadotti - Outra preocupação
manifestada no livro é com relação à identidade cultural das crianças, que a
escola ignora. Diante desse sistema que coloca uma única ideia de cultura, um
currículo monocultural, o que pode fazer um professor em sala de aula para
transformar essa escola e esse currículo?
Freire - Um grande número de
professoras e professores se sente absolutamente manietado dentro de uma
administração autoritária. Esse tipo de administração estimula as professoras a
virar tias, o conceito pelo qual elas explicam ou se acomodam ao imobilismo que
o autoritarismo espera delas. Mas acho que é possível fazer educação popular na
escola. Claro que uma coisa é você nadar a favor da correnteza e outra é nadar
contra. Se você tem uma administração aberta, democrática, você nada a favor da
corrente quando defende uma série de posturas político-pedagógicas abertas. E
nada contra o corrente, quando o conceito de participar é proibido, é um
pecado. Então fica difícil você defender a participação e sobretudo viver a
participação. Mas que é possível é.
Gadotti - O que você faria, como professor, na sala de aula?
Gadotti - O que você faria, como professor, na sala de aula?
Freire - Uma das coisas que a
professora deveria fazer, por exemplo, para compreender a cultura
multiculturalmente. É comentar com os alunos as diferenças e dizer que, quando
você discute tal coisa do conteúdo do programa, essa coisa não é universal, ela
tem suas dimensões regionais, até de família, e entra aí o problema de classe.
A cultura de classe existe. A linguagem de classe existe. Há uma sintaxe que é
da classe trabalhadora e outra que não é. É preciso saber como você reinventa a
linguagem, compreendendo a diversidade dessas sintaxes, como consegue recriar a
linguagem de forma correta. E como professor você pode testemunhar diariamente
a sua postura e aí compreender muito bem a relação dialética entre tática e
estratégia. Quer dizer, você tem o sonho estratégico, que é o da
multiculturalidade, mas tem que ter táticas para falar dele, porque você pode
cair nos exageros do discurso - que são idealistas, voluntaristas - e você pode
perder o emprego. E a questão sua não é perder o seu emprego; é manter o
emprego e ajudar o seu sonho. Acho que não há fórmulas para isso. Você tem que
recriar todo dia as suas táticas para superar o exclusivismo de uma compreensão
cultural estreita.
Gadotti - A experiência vivida na Secretaria da Educação te deu mau impulso danado para escrever. Quais são seus planos para os próximos 50 anos?
Gadotti - A experiência vivida na Secretaria da Educação te deu mau impulso danado para escrever. Quais são seus planos para os próximos 50 anos?
Freire - Quem me dera esses 50
anos... No momento estou escrevendo um livro de que gosto muito, que está cheio
de afetividades, que vai se chamar Cartas a Cristina. É uma sobrinha que se
correspondia comigo desde que era criança e eu estava no exílio. Um dia, recebi
uma carta em que ela me dizia: "Até hoje conheci tio Paulo através de
minha mãe, meu pai e minha avó. E agora que cheguei à universidade comecei a
conhecer um outro Paulo, através de referências um pouco assustadas (estávamos
ainda no Estado militar), não mais do tio Paulo, mas do professor Paulo Freire.
E estou tão curiosa de saber sobre o Paulo Freire tio dos outros todos, e não
só o meu, que queria pedir um favor: faça cartas para mim sobre sua vida, sobre
sua infância". Achei fantástico e respondi que ia fazer.
Gadotti - E depois desse livro?
Freire - Tenho um sonho
de fazer um ensaio sobre Amílcar Cabral (líder revolucionário que fundou o
movimento de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde, na África). Acho muito
oportuno trabalhar um pouco isso. Num momento em que se pensa que nunca mais
vai haver revolução, eu, pelo contrário, acho que vai haver. Não depois de
amanhã e não igual às que já houve. A gente precisa compreender que a história
não se acabou. O que está acabando é uma maneira de fazer história. Hoje a
gente está começando a viver uma nova maneira de ser históricos, que é preciso
que a gente perceba. Tudo que a gente puder fazer para esclarecer isso é dever
fazer.
Gadotti - Falando em esclarecer,
o que você diz das críticas que o atual secretário municipal da Educação, Solon
Borges dos Reis, tem feito à administração anterior, da qual fizemos parte? Ele
anunciou a desativação da Mova (Movimenta de Alfabetização de Adultas) porque
tinha objetivos político-ideológicos. Ele também pretende trabalhar mais com a
profissionalização, ao contrario de nós, que trabalhamos mais com a autonomia
da escola e com participação - segundo o professor Solon, palavras associadas à
pedagogia libertadora de Paulo Freire. Ele diz que vai enfatizar a pedagogia
para a responsabilidade.
Freire - Devo sublinhar, em
primeiro lugar, que o professor Solon tem o dever de procurar afirmar sua
gestão de secretário na posição e na opção político-ideológica que ele tem, que
o governo de que ele faz parte tem. Nesse sentido, ele é tão político quanto
nós. Não existe neutralidade a que ele faz referência. Ele não é neutro. Ele
está procurando canalizar a sua administração numa perspectiva não apenas
pedagógica, mas numa opção político-ideológica que diverge da nossa, que é
oposta à nossa. E é um direito que ele tem.
Gadotti - Aliás, ele confessa
isso quando diz que "os valores da administração do PT não são os valores
que nós queremos para a educação".
Freire - Exato. No livro
Política e Educação, há um texto sobre educação e responsabilidade, em que eu
discuto a compreensão de responsabilidade associada à educação e enfatizo essa
questão da opção da opção política, do responsável pela responsabilidade
pedagógica. Defendo o direito de o professor Solon defender sua opção. Por isso
eu também digo nesse texto que não é possível, rigorosamente, uma continuidade
administrativa, quando acontece de uma administração conservadora seguir-se a
uma administração progressista. Como é que eu, um educador que me considero
progressista, posso continuar uma obra reacionária? E como é que um
reacionário, um conservador, pode continuar uma obra progressista? Os aspectos
puramente administrativos são pouquíssimos. Todo problema administrativo está
iluminando e fundando uma questão política. Por exemplo, as prioridades são
políticas, ideológicas.
Gadotti - Esse fato não reforçaria a ideia de que mais importante no fundo é fortalecer as propostas político-pedagógicas das próprias escolas, para que elas resistam um pouco mais à descontinuidade administrativa?
Gadotti - Esse fato não reforçaria a ideia de que mais importante no fundo é fortalecer as propostas político-pedagógicas das próprias escolas, para que elas resistam um pouco mais à descontinuidade administrativa?
Freire - Acho que sim, mas isso
também bate no poder político de quem tem a administração central. Por exemplo,
como pode uma administração conservadora aceitar, primeiro, a própria ideia de
autonomia da escola? Não pode, porque uma das características do conservantismo
é exatamente a centralização do poder. Quando você pergunta o que é que
significa a própria autonomia da escola, a resposta tem um ponto de partida
político e ideológico. Não é uma pergunta puramente da ciência da
administração, não é uma pergunta cuja resposta dependa da pedagogia. A prática
educativa vai refletir um sonho político-ideológico de quem define a autonomia.
Outra coisa: é absolutamente errada a ideia de que nós não fazíamos uma
educação para a responsabilidade ou educação responsável. Só que a nossa
responsabilidade se fundava noutros valores. A nossa responsabilidade tinha que
ver, sobretudo, com a ontologia, com a qualidade de ser do ser humano. Quer
dizer, eu sou responsável como educador com relação a esse núcleo básico que
nos marca, que nos caracteriza - e que se constituiu histórica e socialmente e
não a priori da história -, que é a vocação de ser mais. A minha
responsabilidade é com isso. Por isso falo em ontologia. Eu sou responsável na
minha prática educativa no sentido de ajudar-me e ajudar os outros a ser mais.
E não é possível ser mais sem libertação. Então, a pedagogia da libertação é
profundamente responsável.
Gadotti - Qual é a diferença
entre a pedagogia da libertação e essa que está senda posta em prática?
Freire - A diferença entre ela
e a outra que se diz responsável - e que é tão responsável quanto nós - é que a
conservadora é responsável diante dos interesses dos dominantes. Agora, dizer
que a que é responsável diante dos interesses dos dominantes é a única responsável
é um absurdo. Como eu também não posso dizer que somos os únicos responsáveis.
Mas eu tenho que distinguir em que ponto eu sou responsável. A minha utopia não
é a utopia do conservador. O conservador quer conservar, por isso é reacionário
- porque não é preciso conservar o que é legítimo luta-se para conservar o que
é ilegítimo.
Gadotti - Que balanço você faria
hoje do que foi feito na sua administração?
Freire - Não tenho um balanço,
mas se você perguntar se eu estaria arrependido de alguma coisa, eu te diria
que, apesar da legitimidade do arrependimento, eu não tenho nenhum. Eu faria de
nova a mesma coisa. Quando nos juntamos para administrar a Secretaria, não
pensamos que éramos os maiores educadores do Estado. Segundo, nenhum de nós
pensou que por isso mesmo somente nós seríamos capazes de fazer alguma coisa
positiva. Terceiro, nenhum de nós pensou que estávamos ali escolhidos por Deus
para salvar a educação de São Paulo e depois a brasileira. O que sabíamos era
que éramos capazes de fazer uma coisa séria e apostávamos, sem nenhuma falsa
modéstia, que éramos capazes. E tínhamos opções políticas. Sabíamos, por
exemplo, que defendíamos uma escola que, sendo pública, deveria tornar-se uma
escola popular. E você. Gadotti acrescentava que era preciso esclarecer o que é
o popular: quando queremos que a escola pública se torne popular, eficaz,
democrática, não estamos pensando em fazer uma escola ruim para os meninos que
nasceram ricos. Estávamos convencidos de que devíamos fazer uma escola que,
tendo o gosto, o cheiro do popular, não tivesse nojo da burguesia. A gente
queria que essa escola tivesse a cara brasileira, portanto uma escola aberta,
feliz, crítica, que provocasse a criatividade dos meninos e não o medo. Para
isso, precisávamos de uma administração que fosse assim também. Não é possível
pensar no sonho democrático da escola tendo uma administração autoritária.
Gadotti - Por isso você promoveu mudança, nos estruturas de poder da Secretaria?
Gadotti - Por isso você promoveu mudança, nos estruturas de poder da Secretaria?
Freire - Fizemos uma mudança estrutural na qual o secretário perdeu possivelmente 60% do puder arbitrário que tinha. Eu não podia mais nomear nem uma secretária de escola. Vinham as indicações das bases. Se não se arrebentar com aquele gosto colonial de administrar - em que cabia ao secretário dispensar até a professora que perdeu aula no mês de setembro do ano anterior -, não se pode falar na autonomia da escola. Procuramos os Conselhos de Escola, criados por Mário Covas em 1985 e arquivados por Jânio Quadros. Os Conselhos de Escola foram um salto extraordinário no servido da ingerência dos pais, dos alunos e das professoras frente ao poder central do diretor.
Gadotti - Você acha que esse gosto peta liberdade, pela autonomia, pela participação é uma marca deixada pela sua administração e que vai ficar?
Freire - Eu acredito nisso.
Mesmo que esse gosto sofra momentos de abafamento, em que sente que não pode se
expressar. Porque, afinal de contas, o gosto de vir a ser faz parte da
ontologia do ser. Ninguém pode decretar que os homens e mulheres deixem de
sonhar. Isso é negócio de ditador.
Fonte (.( http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/paulo-freire-podemos-reinventar-mundo-entrevista-640706.shtml).
Fonte (.( http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/paulo-freire-podemos-reinventar-mundo-entrevista-640706.shtml).
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